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A invejosa e os piores


Vários pontos em comum unem “Envidiosa”, da Netflix, e “You’re the Worst”, da FX. Os dois programas são comédias românticas, o primeiro mais tradicional, o segundo mais sombrio e cínico. Como tal, giram em torno das idas e vindas amorosas de algumas pessoas. No caso de Envidiosa, o enfoque é em Vicky e suas tentativas com alguns felizardos diferentes. No caso de You’re the Worst, sempre na dança orbital entre Greta e Jimmy.

 

Há elementos atuais e realistas na abordagem dos dois: as histórias não são contadas com início, meio e fim nem moral no final, não há um conjunto de obstáculos e desvios que culminam num final feliz ou outro desfecho definitivo. Os personagens se veem sempre à deriva e desprovidos de certezas, provável eco de uma sensação que anda cada vez mais difusa mundo afora. O visceral “Los años nuevos”, por exemplo, também se vale dessa angústia quase sartreana que vidas cada vez mais compridas e escolhas cada vez mais amplas têm instalado em muitos que nasceram nas últimas décadas. 

O uso da saúde mental como elemento narrativo também é bastante contemporâneo e ponto de contato entre as duas séries. Nas duas, boa parte dos personagens lida com pais horríveis e infâncias/adolescências traumáticas. Em Envidiosa, o recurso é mais evidente: boa parte dos episódios começa, termina ou inflexiona nas sessões entre Vicky e Fernanda, analista paciente e irreprochável. 

Mas se no programa argentino os personagens dividem e simpatizam suas questões entre si, em You’re the Worst eles tendem a reprimir, recorrer a remédios ou outras drogas e extravasá-los em comportamentos grotescos. Aqui o paralelo bifurca: enquanto em Envidiosa os interlocutores impassíveis ou críticos cedo ou tarde concedem lampejos de empatia, em You’re the Worst eles se aferram aos seus papéis de sempre, implacáveis. 

Provavelmente por uma opção autoral: em Envidiosa, todo o plantel de personagens é multifacetado. Em You’re the Worst, há duas lentes: Gretchen e Jimmy são esféricos e desenvolvidos, exibem camadas e fases, já os outros são marcadamente caricatos, construídos num tom de teatralidade farsesca.   

A comparação mais interessante entre os dois seriados, porém, parte dos pressupostos profundamente opostos das buscas de Vicky, de um lado, e de Gretchen e Jimmy, do outro. Vicky, independente e realizada profissionalmente, ainda é vítima de imperativos de épocas anteriores – o casamento dos sonhos, uma casa bonita, filhos “perfeitos” e uma vida de comercial de margarina.

Gretchen e Jimmy portam ideias de um tempo posterior e veem tudo que é tradicional e convencional como ridículo e cafona, indigno de suas vidas descoladas. Mesmo quando acometidos de faíscas de ternura e lirismo, costumam reprimir, calar ou esconder. Já Vicky se lança pelas diferentes veredas de peito aberto, tenta sinceramente transcender o projeto da família tradicional, discute e questiona explicitamente os seus valores herdados. O cinismo de fachada de Los Angeles faz forte contraste com o calor afetuoso de Buenos Aires. 

É bem por isso que Envidiosa é uma série muito mais prazerosa de assistir. Aqui talvez a proximidade cultural tenha um peso, mas a patetice de Vicky, suas famílias e amigas, todas interpretadas por atores excelentes, induz uma proximidade irresistível. Além de ser engraçadíssima. Em You’re the Worst, a escolha foi por manter o palco bem visível: ninguém conhece nem acredita em pessoas tão desmioladas quanto Lindsay ou Vernon, tão desajeitadas quanto Paul. Logo, ninguém se compadece das suas desventuras (inúmeras). 

Mas Gretchen e Jimmy transitam num grau de detalhamento diferente. Ao longo das cinco temporadas há momentos em que torcemos (como sempre acontece ao ver comédias românticas) por uma declaração, uma concessão, uma amostra de vulnerabilidade que acaba nunca vindo. Algo como relembrar anos da juventude em que, por inércia, excesso de pudor ou por contar com subentendidos, colocamos tudo a perder.  

Essa decisão de roteiro do programa americano, porém, é consistente e carregada até o fim da última temporada. Se Envidiosa é um seriado mais empático e gostoso de assistir – muito graças à atuação de Griselda Siciliani (Vicky), nada menos que um gênio da comédia – You’re the Worst traz um desfecho menos enternecedor e mais corajoso. 

Na conclusão de Envidiosa (que não parece planejada), a deriva e a adaptação a ela dão o tom. Ainda que quase nada tenha saído como planejado, há cumplicidade e afeto em muitas direções, uma relativa paz no equilíbrio que foi possível alcançar. Já Jimmy e Gretchen não querem contar com ninguém até o fim, não recuam um centímetro ante as convenções, reafirmam o império dos próprios desejos e caprichos mesmo diante de muitos convidados de um casamento badalado.  

Uma integração possível seria pensar que o casal de You’re the Worst está passando por um pedaço do caminho que, mais tarde, provavelmente vai dar em algo parecido ao que se propõe em Envidiosa. Como for, depois de assistir aos dois, o que sobra é que os itinerários de hoje em dia passam por trilhas cada vez menos batidas. 

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