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Tecnostalgia: telejornal

No ano 2000, quando ainda assistíamos à TV a cabo, Roberto Drummond escreveu, numa das revistas que divulgavam a programação entre os assinantes, uma crônica sobre Luciana Ávila, apresentadora da Globo News. Já não me recordo do texto (que não encontrei online) além de que ele elogiava a aparência da moça. E que a locução dela tornava notícias graves mais palatáveis ou pieguice equivalente.

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As questões femininas ainda não eram tão debatidas na época mas, embora jovem, achei o texto bobo, típica tirada de velho babão. Mais jovem do que o Roberto, sou porém velho o suficiente para ter lido a revista da TV a cabo e dividir com ele hábitos daquela época, como assistir ao noticiário pela televisão.

É a partir desse hábito que consigo entender em parte porque o autor pagou mais esse mico: a atenção que direcionamos aos locutores que anunciam os últimos desdobramentos é de um tipo específico, que não se confunde com àquela dispensada a um colega de reunião, um professor, um interlocutor ou transeunte. É um escrutínio peculiar, como se pequenos indícios, meneios ou variações de tom e de expressão fossem complementar a informação enunciada, entregar algum detalhe adicional, pelo menos enquanto não entram as imagens.

Inspirem-se, estuffers

E a expressão e o tom dos locutores de fato interfere na experiência de atualizar-se sobre os acontecimentos. Ouvi-los do Heraldo Pereira, por exemplo, o diplomata do noticiário, torna a sessão um pouco mais serena. Há décadas ele narra o torvelinho nacional com a mesma elegância inabalável. Uma elegância transcendente, intrínseca. Se Heraldo Pereira for gravado comendo enrolado de salsicha com cachaça encostado na estufa de um boteco, aquilo vai pegar moda, surgirão jovens estuffers e receitas de hotdog rolls gourmetizados nos programas de gastronomia.

Salto estético

Heraldo Pereira é o único sapiens que não fica ridículo de touca de banho, de avental cirúrgico e de meias compressoras. É o único que não parece um boneco inflável depois de 10h num voo transatlântico. Ouvi-lo agradecer o prestígio da escolha da audiência antes de anunciar as calamidades do dia é como ganhar um pirulito na cadeira em forma de carrinho antes de o barbeiro infantil começar a trabalhar.

Balcão de crise

É um efeito parecido ao da condução de Karyn Bravo, que parece haver-se transfigurado ao deixar a barra-pesada vespertina para animar o jornal noturno da TV Cultura. A sua saída do SBT aparentemente foi acompanhada de um salto estético: a bancada do programa a envolve como o escritório da coordenadora da Terra, de onde discute o apocalipse como uma junta médica debate os destinos de um moribundo.

Convocando ora um, ora outro comentarista detrás do balcão largo e meio futurista, faz lembrar a Sala da Justiça do antigo Superamigos. Como os heróis da Liga da Justiça, o gabinete de crise é o seu métier, ela não se deixa abalar. O que de forma alguma tem a ver com indiferença: também como os campeões da Liga, paira acima da desgraça mundana precisamente para enxergá-la melhor.

Longe, mas de olho

Já que acabei por parafrasear o texto que achei ridículo vinte e poucos anos atrás, aproveito para me conceder uma bravata nostálgica: que confortável é ouvir pessoas que se dedicaram a alguma área do conhecimento durante anos e décadas - e não surgiram do Beleléu digital replicando mentiras ou pautas alienantes - debater questões pertinentes de maneira organizada! Robertão, se for um esqueleto antenado, não tem conta no website anteriormente conhecido como Twitter e certamente está de olho no Heraldo e na Karyn. 

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