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Laird Hamilton: obsessão

Ser feliz
Es beber el mar, beber el mar
(P. Suárez-Vértiz)


O tubo é o lugar sagrado dos surfistas
(L. Hamilton)

 

É curioso que Laird Hamilton tenha sido empurrado para a fama como Lance Burkhart, o surfista não só competitivo como inescrupuloso e petulante de “North Shore”, sucesso repetido muitas vezes nas sessões da tarde como “Surfe no Havaí”.

Numa cena crítica, ele puxa a cordinha do herói e rouba a sua onda, mas é flagrado por Chandler, um “surfista de alma”, das antigas, modelador de pranchas e também fotógrafo.

Waterman

Ele chegou a ser associado a Lance na vida real, como os atores que fazem os vilões das novelas. Mas na verdade não gostava de campeonatos. Segundo ele, pelo desconforto com a ideia de ser avaliado por uma banca. Segundo seu pai, por não saber perder.

Pai de consideração, aliás, já que o de sangue abandonou a mãe ainda grávida dele. Take Every Wave, o excelente documentário sobre a sua trajetória, abre falando de sua mãe, sobre quem existe farto material, inclusive entrevistas dela ainda com vinte e poucos anos e imagens em que ela surfa logo depois de se mudar para o Havaí. 

"Se eu pegar todas as ondas, vou descer as boas."

Lá Laird cresceu, à beira do mar onde estouram as ondas mais lendárias do mundo, entre tensões parecidas com aquelas caricaturadas no filme North Shore. Branco e louro - haole - ele era a encarnação do invasor do arquipélago e franca minoria. Frequentava a escola com medo dos colegas, de quem vira e mexe apanhava.

Por causa do comportamento imprevisível, acabou apanhando muito do pai adotivo também. E voltou-se cada vez mais para o mar, onde tudo era mais direto e concreto, onde entendia as regras e sabia instintivamente como se portar. Ainda adolescente, já surfava que nem gente grande e, ao descer ondas cada vez maiores em dias de ressaca, conquistou o respeito até dos havaianos “de sangue”.

"Remar" ficou mais literal

Com uma trajetória inteiramente peculiar, Laird descreve uma espécie de “tolerância adquirida” ao medo e à adrenalina que o impele a testar os limites – seus e dos esportes que pratica – continuamente. Só veio a começar a ganhar dinheiro enquanto windsurfista e, mais tarde, com uma marca própria de roupas voltadas para o público do ramo.

Ele se define como um homem do mar, waterman, e ninguém pode duvidar: tudo o que faz é voltado para a interação com a água, inclusive proezas como atravessar o Canal da Mancha ou ir da Córsega à Ilha de Elba “remando” apenas com os braços.


Fez evoluir a técnica do windsurf, inventou o tow-in, a prática de ser rebocado por lanchas ou jet-skis para ondas cada vez maiores, adotou as presilhas para os pés nas pranchas de surf, que abrem possibilidades inusitadas, desenvolveu o surfe em pranchas “voadoras”, com hidrofólios, e até uma espécie de assistente motorizado para mergulho, o SeaBob.

Laird Hamilton também fez evoluir o stand-up paddling e inventou coisas como uma espécie de caiaque para remar deitado, com os braços. Como Duke Kahanamoku, um homem do mar clássico, que gostava de modelar e aprimorar o seu próprio material na garagem de casa. 

🥽

Enquanto Duke preservava o teor ritualístico e lúdico do surfe e a tradição de pranchas em madeira maciça, porém, Laird é um inventor inquieto, que passa ao próximo projeto logo que sua tolerância às drogas hormonais alcança a modalidade atual.

Foi nada menos do que o primeiro a surfar a laje mortal de Teahupo’o, por exemplo. Chamada de onda do milênio, é um ponto de inflexão no esporte. E, quando as ondas que ele pegava ficaram tão grandes que nenhuma prancha, mesmo atada aos pés, dava conta do atrito, ele resolveu suspendê-la, adotando seus famosos hidrofólios.

Menos atrito

Nesse processo, foi acusado de desvirtuar o espírito do surfe de comunhão com o mar ao popularizar o tow-in de jet-ski a partir de Pe’ahi (pico de ondas monstruosas na ilha havaiana de Maui). Aparentemente, o caráter contemplativo, conectado a tradições ancestrais do surfe, não é uma preocupação sua.

Uma maneira de resumir o documentário seria “a história de um cara que dedica a vida a fazer as coisas mais legais possíveis”.

Obsessão

E “obcecado” talvez seja a descrição mais adequada para o sujeito que, rondando os 60 anos, mantém a pinta de halterofilista, exercitava-se compulsivamente dentro e fora d’água, com pesos, máquinas e engenhocas variadas, inclusive uma banheira de gelo, e, mancando após várias fraturas e desgastes ósseos, se dizia movido por uma urgência de pegar o máximo de ondas no tempo que ainda lhe resta.

Bem mais medroso, eu me encolhi em muitas das cenas do documentário nas quais ele e seus colegas passavam muito perto de virar saudade, repetidamente, ao longo dos anos. Me refugiei, seguro no sofá, na filosofia do Duke: “o melhor surfista é o que está se divertindo mais”. 

Antes e depois

Mas, tendo experimentado o stand-up paddling e enquanto aspirante a praticar o wing surfing, tenho que reconhecer que os loucos marcianos como Laird, para além dos recordes suicidas, são os que ajudam a tornar os mares ainda mais divertidos. Afinal, séculos ou milênios atrás, em alguma praia do Pacífico, alguém precisou ter a ideia de sair do conforto da areia para se colocar em cima de uma prancha e descer uma onda pela primeira vez. A ele e outros pioneiros, muito obrigado.

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