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40: a falência da imortalidade

Aos 40, depois de alcançar o amor, de saber da morte na cama, escapar de um inferno subjetivo e ingressar num aparente paraíso, eu ruí.

Na meia-idade, com a cabeça cheia de cabelos brancos, eu desabei, ruí.

Tinha que ir ao barbeiro, e pensava em revisitar a antiga vizinhança, então saí apressado, mas satisfeito: meu telefone havia acabado de receber a última versão do sistema operacional, eu almoçaria uma feijoada famosa no antigo bairro e cortar o cabelo é sempre um alívio. 

Sábado de contemplação

Tirei pelo caminho uma foto de um cacho de flores, faceiro a caminho de minhas tarefas periódicas. Segui a rua e dobrei a esquina para a avenida que conduz a bairros mais próximos de onde eu morava. A mudança de logradouro coincidiu com uma estranha alteração de tônus físico. Lojas, prédios enormes, bancos e bancas fizeram-se estranhamente nus porque não tinham corrimãos nem espaldares de cadeiras nos quais eu pudesse apoiar minhas mãos meus braços meu tronco subitamente inseguro, como se eu tivesse acabado de me levantar rápido demais depois de muito tempo relaxado.

Passada uma banca de revistas também pouco convidaditiva para uma escoragem preventiva, prossegui, e a onda de leveza na cabeça parecia haver passado. Foi o último suspiro de prepotência do ocaso da minha juventude. No quarteirão seguinte, a tontura voltou a se instalar, com intensidade idêntica ou superior e eu não consegui chegar à quadra seguinte.

O fragmento subsequente de minha própria existência foi estranho a mim. Havia ramos vindos das copas de árvores altas acima, vistas de um ângulo inusitado. O sol do dia seguia alto, apesar das mangas compridas e de uma leve tendência ao cinza. Rostos simpáticos e interessados se materializaram sobre mim. Lembro-me de um homem e de uma mulher, de uma idade que sou incapaz de distinguir da minha.

💤

A mulher sorria e, sob o sol quase meridional, capturou meu olhar. Sua expressão era doce: compreendi que, durante alguns instantes, ela tinha diligenciado para descobrir contatos de interesse a partir de meu celular, sacado do meu bolso e, àquela altura, ela (e outros solidários) estavam próximos de consegui-lo. 

Perguntaram-me coisas como onde eu morava, onde me encontrava naquele momento, para onde ia quando caí. Eu compreendia as perguntas, sabia que eram simples e prosaicas, mas não encontrava as respostas.

Não me deixaram levantar a cabeça do chão, onde havia uma poça considerável de sangue. Senti uma sede furiosa, e não me deixaram beber mais do que três gotas d'água. A cabeça não doía, mas o ombro latejava terrivelmente. Observei que dele não saía sangue mas, ao apalpá-lo, percebi que não era o mesmo, havia mudado de lugar, se via claramente diferente do outro.


O sentimento de perda só me assolou, porém, quando percebi que vários dos meus dentes estavam ásperos, grossos, com pedaços a menos. Meus dentes, que durante décadas caíram em meus pesadelos, tinham pedaços a menos e se atritavam em contato cru. Com pelo menos meia dúzia de dentes lascados, eu deixara de vez de ser imortal.

Desde então me vi impedido de tarefas como estender minha roupa de cama ou comer biscoito e fui lembrado da seriedade da lesão no ombro ao sacudir o frasco de molho de pimenta ou o tubo de desodorante. Descobri que alguns de meus dentes, além de ter pedaços a menos, estavam frouxos na gengiva debaixo. Ainda corro risco de perder algum.

😬

Também descobri que muito provavelmente passei por uma crise convulsiva: os danos aos dentes não coincidem com a minha mordida "em repouso", alguém que me viu cair tomou o cuidado de avisar aos socorristas que havia me visto convulsionar e um mendigo que rondava a cena me perguntou se eu era epiléptico. Não bastasse, senti boa parte de minha musculatura - panturrilhas, coxas, abdômen, pescoço - dolorida nos dias seguintes, com a típica acumulação de ácido lático dos esforços extenuantes.

🚑

Se eu não perdi o controle do esfíncter, como observaram os sagazes socorristas, talvez seja porque estava profundamente desidratado - não havia nada com que molhar as calças. Minha melhor hipótese até agora é que, forçado pela ingestão pouco responsável de destilado na noite anterior e distraído pela tecnologia, meu organismo "esqueceu-se" de dar sinais suficientemente claros de desidratação, inclusive sede e ares de ressaca, a não ser instantes antes do colapso.


Se o luto de verdade ainda não me tocou, se uma saúde notavelmente estável nutriu em mim uma espécie de ilusão de que más coisas só acontecem aos outros, minha vez chegou: eu ruí e, se tivesse coragem de pedir para ver as imagens de segurança dos estabelecimentos da esquina fatídica, certamente confirmaria que não foi bonito de ver.

Indiferente

Tento agora sacudir a atmosfera sinistra que o episódio instaurou ao meu redor e que, nos piores momentos sobre alguém sem filhos, família próxima nem dependentes, contém espiadelas de melancolia ao estilo de adolescentes indígenas, para, na melhor das hipóteses, tornar o zelo fisiológico um eixo de rotinas, cuidados e procedimentos regulares.

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